domingo, 30 de março de 2014






 " Poeminha amoroso"


Este é um poema de amor
Tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia 
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado 
nas linhas e entrelinhas 
deste pequeno poema,
o verso;
O tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
Eu te amo, perdoa-me, eu te amo...








Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado 
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver

                                   Cora Coralina 





domingo, 23 de março de 2014





Fecundação

Teus olhos me olham longamente,
Imperiosamente...
De dentro deles teu amor me espera

Teus olhos me olham numa tortura de alma
Que quer ser corpo de criação que anseia ser criatura.

Tua mão contém a minha de momento a momento:
É uma ave aflita meu pensamento na tua mão.

Nada me dizes, 
porém entra-me a carne a persuasão
De que teus dedos criam raízes
 na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à  forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
Há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas. 
                                                 (in sublimação, 1928) Gilka Machado

Desejo à todos uma excelente semana, espero breve estar respondendo à todos...
Meu carinho cidinha...



domingo, 16 de março de 2014







Em todas as Ruas te Encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Conheço tão bem o teu corpo
Sonhei tanto a tua figura
Que é de olhos fechados que eu ando
A limitar a tua altura
E bebo a água e sorvo o ar
Que te atravessou a cintura
Tanto  tão perto  tão real
Que o meu corpo se transfigura
E toca o seu próprio elemento
Num corpo que já não é seu
Num rio que desapareceu
Onde um abraço teu me procura

Em todas as ruas te encontro 
Em todas as ruas te perco

                   Mário Cesariny 



sábado, 8 de março de 2014





Reinvenção

"A vida só é possível reinventada"

Anda o sol pelas campinas
E passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas que vêm de fundas piscinas 
de ilusionismo... Mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua figura.
Tudo mentira mentira!
Mentira!
Da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só no tempo e equilibrada despindo-me do balanço
Que além do tempo me leva.
Só na treva fico:
Recebida e dada, 
Porque a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
                                                                                Cecília Meireles

 
 FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER !
 

 

domingo, 2 de março de 2014




A Felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim 
A felicidade é como pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve 
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou pirata ou jardineira
Pra tudo acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim 
Felicidade sim!
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila 
Depois de leve oscila,
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é coisa boa 
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim!

A minha felicidade está sonhando
Nos  olhos da minha namorada
É como esta noite,
Passando, Passando,
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor.
                           Vinícius de Moraes

 

FELIZ CARNAVAL À TODOS!!
PAZ E ALEGRIA...  






domingo, 16 de fevereiro de 2014








É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor 
Que se estivesse dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria.Atento
 Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto.Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite

Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo do amanhã será riqueza:
A cada noite,eu Ariana, preparando
Aroma e corpo.E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só exito
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa,Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência? 

Porque te amo
Deverias ao menos te deter
um instante

Como as pessoas  fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.

Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana

Não essa que te louva

A cada verso
Mas outra

Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente

E por isso talvez
te aborreças de mim.

Quando Beatriz e Caiana te perguntarem,Dionísio
Se me amas, podes dizer que não.
Pouco me importa
ser nada à tua volta,sombra,coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã.

A mim me importa,Dionísio,o que dizes deitado,ao meu ouvido

E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor.
E no verso se faria injúria

E no meu quarto se faz verbo de amor

Três luas Dionísio
Não te vejo
Três luas percorro a casa minha
E entre o pátio e a figueira 
Converso e passeio com meus cães
E fingindo altivez
Digo a minha estrela, essa que é inteira
prata dez mil sóis

Sírios pressagam que ariana pode estar sozinha sem Dionísio
Sem riqueza ou fama porque há dentro dela um som maior
Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada
Mais luzente alta quando tu Dionísio não estás


Três luas Dionísio
Não te vejo
Três luas percorro a casa minha
E entre o pátio e a figueira 
Converso e passeio com meus cães
E fingindo altivez
Digo a minha estrela, essa que é inteira
prata dez mil sóis

Três luas,Dionísio,não te vejo


É licito me dizeres, que Manan, tua mulher
Virá à minha Casa, para aprender comigo
Minha extensa e difícil dialética lírica?
Canção e liberdade não se aprendem

Mas posso,encantada, se quiseres

Deitar-me com o amigo que escolheres
E ensinar à mulher e a ti,Dionísio,

A eloquência da boca nos prazeres
E plantar no teu peito, prodigiosa,
Um ciúme venenoso e derradeiro.

Se Clódia desprezou Catulo
E teve Rufus, Quintius,Gelius,
Inacius e Ravidus
Tu podes muito bem, Dionísio,
Ter mais cinco mulheres
E desprezar Ariana
Que é centelha e âncora
E refrescar tuas noites
Com teus amores breves.
Ariana e Catulo, luxuriantes
Pretendem eternidade,e a coisa breve
A alma dos poetas não inflama.
Nem é justo,Dionísio, pedires ao poeta
Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra. 

Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático Jazigo

Pensando

Que se a mim não me deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.

E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata

Apenas tu,Dionísio,é que recusas
Ariana suspensa nas suas águas.

Se todas as tuas noites fossem minhas
eu te daria,Dionísio,a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada,sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria,Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
e agudo se faria o gozo teu.
                                                      Hilda  Hilst 

     

 










domingo, 2 de fevereiro de 2014







Lua Adversa

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
Fases de vir para rua...
Perdição da minha vida! 
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
Tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
No secreto calendário
Que um astrólogo arbitrário
Inventou para meu uso.

E roda a melancolia
Seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
Não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
O outro desapareceu...
                              Cecília Meireles