Fecundação
Teus olhos me olham longamente,
Imperiosamente...
De dentro deles teu amor me espera
Teus olhos me olham numa tortura de alma
Que quer ser corpo de criação que anseia ser criatura.
Tua mão contém a minha de momento a momento:
É uma ave aflita meu pensamento na tua mão.
Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
De que teus dedos criam raízes
na minha mão.
Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.
Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
Há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
(in sublimação, 1928) Gilka Machado
Desejo à todos uma excelente semana, espero breve estar respondendo à todos...
Meu carinho cidinha...
Em todas as Ruas te Encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Conheço tão bem o teu corpo
Sonhei tanto a tua figura
Que é de olhos fechados que eu ando
A limitar a tua altura
E bebo a água e sorvo o ar
Que te atravessou a cintura
Tanto tão perto tão real
Que o meu corpo se transfigura
E toca o seu próprio elemento
Num corpo que já não é seu
Num rio que desapareceu
Onde um abraço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
Reinvenção
"A vida só é possível reinventada"
Anda o sol pelas campinas
E passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo... Mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua vem, retira as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços cheios da tua figura.
Tudo mentira mentira!
Mentira!
Da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...
Só no tempo e equilibrada despindo-me do balanço
Que além do tempo me leva.
Só na treva fico:
Recebida e dada,
Porque a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Cecília Meireles
FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER !
A Felicidade
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou pirata ou jardineira
Pra tudo acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim!
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila,
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade é coisa boa
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem.
Tristeza não tem fim
Felicidade sim!
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite,
Passando, Passando,
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor.
Vinícius de Moraes
FELIZ CARNAVAL À TODOS!!
PAZ E ALEGRIA...
É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora
E sozinha supor
Que se estivesse dentro
Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora
Eu jamais ouviria.Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto.Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo do amanhã será riqueza:
A cada noite,eu Ariana, preparando
Aroma e corpo.E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.
Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.
A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só exito
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa,Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?
Porque te amo
Deverias ao menos te deter
um instante
Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.
Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana
Não essa que te louva
A cada verso
Mas outra
Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.
Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente
E por isso talvez
te aborreças de mim.
Quando Beatriz e Caiana te perguntarem,Dionísio
Se me amas, podes dizer que não.
Pouco me importa
ser nada à tua volta,sombra,coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã.
A mim me importa,Dionísio,o que dizes deitado,ao meu ouvido
E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor.
E no verso se faria injúria
E no meu quarto se faz verbo de amor
Três luas Dionísio
Não te vejo
Três luas percorro a casa minha
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães
E fingindo altivez
Digo a minha estrela, essa que é inteira
prata dez mil sóis
Sírios pressagam que ariana pode estar sozinha sem Dionísio
Sem riqueza ou fama porque há dentro dela um som maior
Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada
Mais luzente alta quando tu Dionísio não estás
Três luas Dionísio
Não te vejo
Três luas percorro a casa minha
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães
E fingindo altivez
Digo a minha estrela, essa que é inteira
prata dez mil sóis
Três luas,Dionísio,não te vejo
É licito me dizeres, que Manan, tua mulher
Virá à minha Casa, para aprender comigo
Minha extensa e difícil dialética lírica?
Canção e liberdade não se aprendem
Mas posso,encantada, se quiseres
Deitar-me com o amigo que escolheres
E ensinar à mulher e a ti,Dionísio,
A eloquência da boca nos prazeres
E plantar no teu peito, prodigiosa,
Um ciúme venenoso e derradeiro.
Se Clódia desprezou Catulo
E teve Rufus, Quintius,Gelius,
Inacius e Ravidus
Tu podes muito bem, Dionísio,
Ter mais cinco mulheres
E desprezar Ariana
Que é centelha e âncora
E refrescar tuas noites
Com teus amores breves.
Ariana e Catulo, luxuriantes
Pretendem eternidade,e a coisa breve
A alma dos poetas não inflama.
Nem é justo,Dionísio, pedires ao poeta
Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra.
Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático Jazigo
Pensando
Que se a mim não me deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.
E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata
Apenas tu,Dionísio,é que recusas
Ariana suspensa nas suas águas.
Se todas as tuas noites fossem minhas
eu te daria,Dionísio,a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada,sigilosa
E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.
Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria,Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
e agudo se faria o gozo teu.
Hilda Hilst
Lua Adversa
Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
Fases de vir para rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
Tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e vêm,
No secreto calendário
Que um astrólogo arbitrário
Inventou para meu uso.
E roda a melancolia
Seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
Não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
O outro desapareceu...
Cecília Meireles
Verdes são os campos
Verdes são os campos
De cor de limão
Assim são os olhos do meu coração
Campo, que te estendes
Com verdura bela,
Nosso pasto tendes,
De ervas nos mantendes
Que trás o verão
E eu das lembranças do meu coração.
Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso sentimento
Não no entendereis,
Isso que comeis não são ervas, não:
São graças dos olhos do meu coração.
Luís de Camões
As duas flores
São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol.
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas
Como a tribo de andorinhas,
Da tarde no frouxo véu.
Unidas , bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas... ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver qual vive essa flor.
Juntando as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!!
Castro Alves
A nossa casa
A nossa casa,Amor a nossa casa!
Onde está ela, Amor,que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a num instante, o meu desejo!
Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
Sonho... que eu e tu pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,
Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro -tão bom!- dentro de ti
E tu, ó meu Amor,dentro de mim...
Florbela Espanca
O tempo passa? Não passa
O tempo passa?
Não passa no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima cada vez mais,
nos reduz à um só verso e uma só rima
de mãos e olhos, na luz.
O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida,
pois só quem ama escutou o apelo da eternidade!
Carlos Drummond de Andrade
Tenham uma boa semana!!